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INCUBADORA


Idéias incubadas

A luz


Federico Fellini, A luz
"A luz é a substância do filme e é
porque a luz é, no cinema, ideologia,
sentimento, cor, tom, profundidade,
atmosfera, narrativa. A luz é aquilo
que acrescenta, reduz, exalta, torna
crível e aceitável o fantástico, o
sonho ou, ao contrário, torna
fantástico o real, transforma em
miragem a rotina, acrescenta
transparência, sugere tensão,
vibrações. A luz esvazia um rosto ou
lhe dá brilho... A luz é o primeiro
dos efeitos especiais, considerados
como trucagem, como artifício, como
encantamento, laboratório de
alquimia, máquina do maravilhoso.
A luz é o sal alucinatório que,
queimando, destaca as visões..."

Federico Fellini

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Sobre lembranças, cabelos e árvores

O tempo a gente percebe pelos cabelos, a gente mede pelos caules e confirma pelas lembranças




Minas Gerais foi o segundo lar de Geraldo, de seus oito filhos e esposa Carmen. Chegaram do sertão nordestino com uma cachorra vira-latas que não era a "Baleia", mas "Lessie", em homenagem a cadela mais famosa do mundo, da TV norte-americana. Moravam em um bairro do subúrbio chamado Contagem, entre morros e ladeiras, carregavam uma vida pobre, de luta pacífica. Geraldo trabalhava como operário nas indústrias siderúrgicas. Dois de seus filhos, Gessé e Batá, tornaram-se caminhoneiros. Marcos foi para Brasília, batalhou e venceu a vida entre os candangos. Gilse casou e tornou-se dona de casa, assim como Débora. Cleide é cordenadora pedagógica, gosta de estudar  e vive prestando concursos para cargos públicos, passando em um e outro aqui e ali. Paulo trabalha com madeira e elaboração móveis para grandes empresas e Naide foi uma adolescente trabalhosa, fugia de casa para viajar em companhia dos hippies, que o pai Geraldo, um conservador ferrenho, odiava. Quando adulta, Naide profissionalizou-se cabeleleira, gosta de animais e pretende abrir um hotel para cães e gatos. Ela tem dois filhos já crescidos, hoje vivem sozinhos. Hoje Seu Geraldo completaria 96 anos se estivesse vivo. Naide relembra do pai, faleceu por causa da doença: alzheimer.

Naide era criança, observava o pai todo dia no quintal, esperando o coqueiro dar frutos. O lugar onde moravam não era terra boa pra se plantar coco, mas Geraldo tinha paciência. Naide dentro de casa encostada no parapeito da janela com os braços suspensos e o queixo apoiado. Todo dia Seu Geraldo aparecia no Coqueiro, se abaixava passava a mão na terra e examinava os frutos pequenos, em fase de crescimento. Ameaçavam despontar, mas ele reclamava: "Ohh demora. Parece que não cresce nada aqui". E a cena se repetia, dia após dia.

À tardinha Naide ia para o comércio escondida da mãe e conversava com a cabeleleira. "Senta ai menina", dizia. Naide via os cabelos caindo no chão e ouvia as histórias mais comuns, sobre filhos problemáticos, vizinhos cornos (é sempre o vizinho), vizinhos esnobes, cães raivosos e remédios pra doenças. Ela gostava daquele ambiente, o lugar onde se corta os cabelos é onde se desprende do passado. Tanta história existe em cada centímetro de cabelo, quando você passa a tesoura é um desprendimento simbólico.

Um dia, com cabelos no pé e orelhas atentas, Naide ouviu uma conversa botânica: entre a cabeleleira e uma cliente "Garota... pra fazer planta crescer não tem coisa melhor do que prego enferrujado. Você prega um no meio do caule e espera, é uma beleza". Naide arredou o pé e correu pra casa animada: "Vou ajudar meu pai", pensou.

Seu Geraldo tinha uma garagem velha cheia instrumentos de trabalho e ferramentas. Naide catou um martelo e uma dúzia de pregos enferrujados e foi pregando prego por prego na árvore do pai. A cada estocada o jovem coqueiro tremia, ela prendeu uns 10 ou 11 pregos dando a volta na árvore. Prendia um, dava um passo pro lado e prendia outro, cobrindo toda a circunferência do caule.

Depois desse dia Seu Geraldo voltou na árvore. Tudo normal, nos dias seguintes reparou que o coqueiro parou de crescer até que começou o declínio. Um dia comentou: "Droga. Logo agora que o fruto tava quase maduro essa porcaria começou a morrer". E analisando a árvore atentamente, Seu Geraldo encontrou um monte de pregos fincados na base do caule da árvore estancando a seiva. Não tinha mais jeito, o coqueiro estava morto. Seu Geraldo revoltado destruiu o Jardim, arrancou o coqueiro, as flores, decepou outras árvores. Depois desse dia Geraldo nunca mais gostou de árvores. Anos depois, Dona Carmen tinha um jardinzinho próprio e seu Geraldo já estava consumido pela dependência do alcool, chegou no quintal dela cheio de raiva e arrancou todas as plantas deixando o jardim devastado. Destruiu também o quintal da filha Gilse numa visita a casa dela. Passou a odiar árvores e jardins. Odiava também as árvores enormes no percurso do trabalho para casa.

Em 2005, quando Naide já tinha uns quarenta anos e Seu Geraldo estava prestes a falecer, ele teve um lapso de memória e comentou com a filha sobre o episódio: "Matar minha árvore foi a pior coisa que você me fez Naide. A pior coisa que você me fez na vida", Naide deu um sorriso amarelo, feliz pelo resquício remanescente de memória do pai..Semanas depois Geraldo morreu, completamente calvo, sem nenhuma  lembrança remanescente cravada na raíz de seu couro cabeludo.


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Menina nova, tia brava


1946, estréia no cinema de Espírito Santo o filme Este mundo é um pandeiro, comédia de Watson Macedo

Marleninha, com seus 14 anos vai ao cinema convidada pela sua Tia Eni, uma senhorita brava, só anda impecável. Marlene escolhe uma saia preta e uma blusa branca, o clima na cidade de Vitória está insuportável de tanto calor. No porto da cidade, navios chegam da Holanda e de outros países do além mar, costumam dizer que as cidades não são muito seguras com esses tipos por aqui. Tia Eni tem na cabeça que "o homem que escolheu a profissão de marinheiro não tem para quem voltar, portanto, não tem o que perder. E quem não tem o que perder... já viu né?"

Na entrada do cinema a fila está enorme. A letra "P" do letreiro do filme se soltou e caiu em cima de um jovenzinho, com um azar desses o pobre coitado nem teve vontade de esperar para assistir o filme, foi para casa fazer um curativo na cabeça. O pandeiro ficou orfão da letra pê, o pobre coitado quase ficou orfão da cabeça que tanto preza.

Dentro da sessão Marlene e a tia Eni arranjam um lugar confortável, mais ou menos no meio do cinema. Um lugar onde podem assistir o filme sem o incomodo de dobrar os pescoços. O cinema é enorme, devem caber quase 500 pessoas nesse lugar, mas conforme o cinema vai se apinhando de gente, vários assistem a sessão em pé, são quase mil pagantes.

Começa a chanchada, nem bem os risos explodem, por causa das figuras geniais do Oscarito e do Grande Otelo, Marlene percebe algo. O senhor da poltrona ao lado desce a mão e fica alisando sua perna por baixo da saia. Marlene, inexperiente demais para lidar com as situações da vida pede ajuda a tia. O senhor abusado tira a mão antes que a Tia Eni veja algo. "Se ele fizer isso de novo me avisa", diz Eni.

Alguns minutos depois o senhor alisa novamente a perna esquerda de Marlene. "Tia. Ele tá fazendo de novo", "Marlene," - Diz a Tia - "Troca de lugar comigo".

Marlene sai da poltrona e troca de lugar com a tia. O senhor da poltrona assiste a troca de lugares sem sequer ter ouvido os cochichos entre as duas. Nem bem a tia Eni se senta, sem nenhuma pachorra, o sujeito passa a mão na perna da tia.

Eni já estava preparada. Anda sempre com um broche na camisa, ela tirou o broche e o deixou aberto. Quando o sujeito foi com mão boba pra cima dela Eni lasca-lhe o brinco na carne, o brinco chega a atingir o osso entortando o metal agudo na mão dele.

O grito de dor vaza por todo o cinema: AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAiii!

Ligam-se as luzes. Suspendem a projeção. Calam-se os risos. Todos olham na direção do escândalo. Tia Eni grita: "Foi esse safado aqui! Passando a mão na minha perna e na da minha sobrinha! Guardas prendam esse pilantra aqui!"

A mão do senhor está sangrando. A multidão se divide entre risos e vaias, o homem passa abaixado no meio da multidão procurando um esconderijo sentindo vergonha, quase mil pessoas, muitas delas em pé, e todas as atenções voltadas para ele.

"Tia, ele pode pegar a gente lá fora e fazer miséria com a gente"
"Deixa ele vir então Marlene! Deixa ele!".

"Tia Eni era brava", lembra Marlene até hoje.


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