Greve
Lá fora ouço uma greve.
Os protestam se levantam, mal compreendo o que dizem no megafone, mas posso ouvir os sons irritantes do apitos, da oradora enfurecida, dos trumpetes improvisados, da janela do décimo primeiro andar vejo as pessoas pequenas. Há várias faixas, pessoas com cartazes, e umas cinquenta pessoas. Há muitas cadeiras e grande parte das pessoas está sentada.
Um sono toma conta de mim, levantei cedo quando queria ficar na cama. Hoje é meu último dia como estagiário, daqui para frente nunca mais serei estagiário em nada, me formei em jornalismo há poucos dias, isso significa que daqui para frente a situação é nova: Desemprego em rumo ao emprego. Trabalho de verdade. Patrões de ferro, apesar de que prefiro trabalhar por minha conta, mas enquanto não descubro uma maneira de ganhar dinheiro, trabalho assalariado. E aí vem a insatisfação com as condições de trabalho, conversinhas de corredor, maus tratos com os funcionários, e meu deus, eu estarei um dia em uma greve? Clamando pelos meus direitos?
"Nós queremos trabalhar", diz o grevista. O Brasil está em crise, novos podres do presidente do Senado Sarney surgem na mídia, o Senado está em crise, e o tempo não é dos melhores. Eu tenho sono, quero dormir. Fico relembrando dos trechos de um livro do Jorge Amado, Jubiabá. No livro, o negro Antônio Balduíno fora moleque de rua, fez amor com mulheres no cais (onde alguns de seus amigos suicidaram-se por não aguentar a dura vida de proletários), escapara ferozmente de uma morte em meio aos arbustos, fora boxeador, funcionário de um circo, sempre lembrando do rosto de seu primeiro amor, uma mulher branca, filha de seu patrão. Um amor puro. Muitas páginas de história, e Antônio Balduíno tornara-se também um grevista. O escritor via a beleza daquela greve, aquele monte de gente aglomerada em torno de um objetivo só.
A greve de hoje é pequena, pouca gente, e tudo o que eu tenho aqui comigo, do alto do décimo primeiro andar é uma apatia sonolenta.
Esse papel amassado vou jogar pela janela, vou observa-lo voando, caindo em direção ao térreo, quem sabe acerte a cabeça de um desses baderneiros que estão atrapalhando meu sono.
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