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INCUBADORA


Idéias incubadas

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Os caroneiros


Augusto e Rogério pedindo carona, dependem da solidariedade do motorista brasiliense

Hoje o transporte público brasiliense entrou em greve, Augusto e Rogério pediam carona em frente ao ponto de parada. Vários carros passavam, eles acenavam com o polegar opositor, sinal dos caroneiros, mas quase nenhum cidadão da capital tem no peito aquele negócio chamado solidariedade. Por isso os dois gastaram muito tempo batendo papo furado.

“Porra cara, hoje eu to me sentindo mal”, disse Augusto estendendo o dedão da carona para um carro que passou em alta velocidade. O motorista fez um sinal negativo com o dedo sobre o volante.

“Que foi? Comeu feijoada” respondeu Rogério com a indiferença típica.
_Não. Não é isso. To com a sensação de que só faço merda.
_Ahh. Mas você só faz merda, isso é fato.
_É sério carai.
_Olha esse filha da puta, passa pela gente e além de não dar carona faz pouco caso, é um filha de uma puta mesmo.
_É sim. Filha da puta.
_Mas o que foi que tu ta se sentindo mal?
_Sei lá. Parece que tudo que faço dá errado.
_Porque acha isso?
_Desde que sou pequeno é assim. Tudo o que eu faço da errado, aí eu tento consertar e aí que eu cago tudo.
_Olha ali, lá vem um grandão.

No final da pista um sinal de esperança, um ônibus pirata modelo antigo, estilo ônibus escolar, pintura branca e amarela, cortinas nas janelas, barulho de ferro contorcido, almofadas acolchoadas, um motorista gente boa e uma cobradora generosa. Augusto e Rogério acenaram pedindo carona e o ônibus parou. “Para onde vão?”, perguntou a cobradora generosa, “nós vamos para São Sebastião, mas se passar perto da rodoviária já serve pra gente”. A cobradora disse que o ônibus vai para o Paranoá, mas que pode deixa-los na metade do percurso, é quase o caminho deles, e não vai cobrar nada. Augusto e Rogério aceitaram de bom grado a carona até o meio do caminho. Enquanto viajavam, Rogério pensava como o dia estava bom: poucas pessoas nas ruas e poucos carros. Uma greve do transporte coletivo pode mesmo fazer uma cidade parar. O proletário não sabe da força que tem, se todos os serviçais parassem de trabalhar poderiam dominar a Burguesia, há um caso de uma cidade do outro continente que sofreu uma greve de coleta de lixo, a cidade virou um caos, havia lixo por todos os lados. Se houvesse uma organização, uma união de todos os proletários, a burguesia estaria nas suas mãos.

O pensamento de Rogério foi interrompido pela necessidade latente que Augusto tinha de contar suas mazelas.

_Pois é... eu faço tudo errado.
_Porra cara. Ainda esse assunto?
_É. Desde pequeno eu sou assim. Eu tenho algum problema.
_ Ai meu deus. E porque tu acha isso? Desembucha.
_Uma vez, por exemplo, quando eu era bem moleque, meu primo da Bahia veio visitar a gente, na verdade ele veio pra morar com a gente por um ano porque a mãe dele estava quebrada de grana e precisou que a minha família cuidasse dele. Esse meu primo tinha um defeito na mão direita, ele tinha nascido com um dedo a mais. Imagina só como esse moleque que só tinha sete anos, como devia sofrer na escola? Todo mundo sacaneava ele.
_Que loucura! Seis dedos!
_Sério, o pessoal chamava ele de Meia dúzia.
_Porque?
_Porque ele tinha meia dúzia de dedos na mão porra!
_Ah, entendi.
_Mas então, um dia a mãe dele arranjou um dinheiro e mandou pra gente. Ela disse que aquele dinheiro era pra pagar um médico pra fazer uma operação no dedinho extra que ele tinha, era pra extrair o dedo.
_Coitado.
_Aí o que eu fiz. Eu recebi a carta da mãe do moleque com o dinheiro dentro de um envelope, na época ela não tinha nem conta no banco. Ai eu tava louco pra comprar uma bicicleta da Caloi, que todo mundo sonhava com ela, e o dinheiro da operação era um pouco mais do que o valor da bicicleta. Eu peguei o dinheiro e comprei a bike.
_E o moleque? Ficou com meia dúzia?
_Não. Eu não sou tão idiota. Eu enchi o moleque de cachaça e quando ele já tava desmaiando eu mesmo amputei o dedo dele com uma faca de churrasco. Sangrou demais.
_Puta que o pariu caralho de raio que te parta! Tu é loco? Tu é um psicopata!?
_Não! Eu enchi o moleque de cachaça, ele nem sentiu. Tanto é que ele nem se lembrava de nada no outro dia. Eu chamei um amigo pra me ajudar, o cara tinha feito um curso de enfermagem, e ele limpou o machucado e tal.
_E o moleque? Ficou bom?
_Ele passou uma semana com febre, não queria ir pra aula. E o mais engraçado foi a mãe dele pelo telefone. Ela falou que ele tinha que ir pra aula de qualquer jeito, nem que fosse morto, mas tinha que ir, porque a escola era muito cara.
“Galera, chegamos na parada de vocês!”, disse a cobradora generosa. Agradeceram e pularam fora do ônibus pau de arara, bendito seja esse transporte pirata, pensaram juntos.
_Vamos andando né? Daqui é bem mais perto. – disse Rogério.
_É.
_Caralho. Coitado do moleque. Mas você também, é um psicopata.
_Que isso! Eu me preocupava com o moleque, fui eu que fiquei cuidando dele quando ele estava com febre.
Os dois caminhavam juntos para casa, apesar da disposição, sabiam que o caminho ainda seria muito longo, mas sempre há a esperança de se conseguir uma carona, independente da solidariedade brasiliense.
_Mas era por isso que você tava mal?
_Não. Era outra coisa, outro dia eu chorei na frente da minha namorada.
_O que aconteceu?
_Pow. Eu meio que tive uma briga com ela, eu tava num dia ruim pra cacete, ai eu tratei ela mal. Mais tarde eu percebi que ela tinha ficado meio estranha, e sei lá, eu tava de mal humor, o dia anterior tinha sido uma merda, eu tinha dormido mal, e eu tava sentindo que o jeito dela falar comigo mudou. Tava um clima estranho, e aí... sei lá, eu chorei na frente dela. Que nem um imbecil.
_Que nada rapá, ela vai te achar um cara sensível.
_Sensível nada, ela vai achar que eu sou um fresco, ou um fraco. Um cara que não aguenta a barra.
_Po!,Mas convenha, chorar assim, do nada. Pra que?
_Sei lá. Tem certas coisas que eu não sei dizer. To me estranhando ultimamente, desde que conhecí essa garota.
_Tu é engraçado, há alguns meses atrás você pregava sobre os benefícios da vida de solteiro e agora vem com essa onda de chorar na frente da mina porque ta de paixonite aguda.
_Mas pior que é. Depois de três semanas eu já queria partir pra outra, mas com ela eu tenho medo de botar tudo a perder. Dar uma de frouxo na frente da mina não é um sinal de força. É foda repetir os erros.
_Errare humanum est.
_Que?
_Nada. Mas pobre de quem não entende isso.
_Eu não entendi.
_Pobre de você. De qualquer jeito eu torço por você e pela tua namorada.

O caminho que tinham pela frente começou a latejar nas pernas de Augusto e Rogério. Andaram calados por alguns metros. Rogério olhou para Augusto e riu da cara dele.

_Hahahah aahuha ahuhau.
_Ta rindo do que?
_UHAUAHauha. De nada. Tu é um retardado, isso que tu é. Tem talento pra ser palhaço.
_Cala boca!
_Cala a boca você rapá. Agora fica quieto e volta a pedir carona.
E juntos caminharam com o dedo polegar estendido, na esperança da solidariedade brasiliense.

  1. Blogger Adriana | 03 Junho, 2008 |  

    Hoje li no teu texto isso de "errar é humano", e pensei que mesmo os que sabem disso não perdem a chance de criticar/julgar a si mesmos e (claro, mais) os outros.

    Então, pra que serve saber que errar é humano em latim ou em outro idioma qualquer? hehe...



    Que bom que não tive que contar com a solidariedade dos brasilienses ontem.
    Você é solidário?




    P.S.: Na janelinha de comentários vc disse que aguarda "cartas de amor"... faz bem ao ego, né? hehehe...

  2. Blogger Ω | 04 Junho, 2008 |  

    Cara, não sei não.
    Vc lembra qual é o nome do grupo?

  3. Blogger Leo | 05 Junho, 2008 |  

    Não... O que seria esse "Mundo Bizarro"?
    Gostei do leiaute aqui, volto depois pra ler!

    Até a próxima!

  4. Blogger Ciça. | 05 Junho, 2008 |  

    Morri de rir do meia dúzia. Tadinho. aehaeuhea
    .
    Contar com a solidariedade das pessoas é foda!


    :*

  5. Blogger *Raíssa | 05 Junho, 2008 |  

    Tava rolando um cigarrinho do capeta na mão desses dois, não tava não? hahaha
    Gostei do texto. Até os homens têm ataques de sensibilidade de vez em quando (bem de vez em quando), né?
    Quanto ao meu post, não acho que seja pessimismo, e sim realismo. Todos nós cometemos atos hipócritas de baixo grau e às vezes nem percebemos por ter se tornado tão normal.

  6. Blogger huagha | 13 Junho, 2008 |  

    outro dia eu percebi que estava sensível, que qualquer coisa me irritava. Estava prestes a explodir, ter uma ataque de fúria, 5 dias fiquei assim, até que percebi que estava constipado, com muita merda dentro de mim.Eu almoçava todos os dias no restaurante do viçosa e as minhas fezes não queriam sair, merda dura, pareciam que tinham garras dentro do meu intestino. Tive que enfiar um toco no cu, com muita dificuldade, para tentar defecar.Me senti um sobrevivente daquela queda do avião no gelo na década de 70(acho!), os caras comiam carne humana apenas, o que dificultava o bom funcionamento do intestino, eu acho que o viçosa vende produtos com carne humana.

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