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INCUBADORA


Idéias incubadas

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O bom ladrão


O verdadeiro canalha sabe encontrar boas desculpas para fazer o que faz

Quando Ricardo observou aquele senhorzinho bem vestido na frente da paróquia carregando uma maleta na mão, logo viu que se tratava de um alvo fácil. Ricardo permaneceu do outro lado da rua, sentado na parada de ônibus. O senhorzinho bem vestido andava de um lado para o outro, esperava por uma carona, talvez. Já era noite, a rua silenciosa, ao lado de Ricardo o vendedor de churrasquinho conversava amenidades com outros dois sujeitos. Dentro da paróquia alguns fiéis prestavam contas de suas dívidas de fé. Assaltar aquele senhorzinho em frente à paróquia seria azar na certa, precisava esperar o momento certo.

O senhorzinho inquieto largava a maleta no chão, consultava as horas. Olhava para os lados mas a rua estava vazia, nem um ônibus, nem um carro. A sensação de solidão e insegurança das ruas noturnas pode assustar alguns, mas para tipos como Ricardo, predadores urbanos, este tipo de ambiente é não apenas conveniente, mas agradável. A insegurança é uma parente relativa à liberdade.

"Esse almofadinha precisa sair daí", pensou Ricardo. Enquanto isso o vendedor de churrasco conversava com a boca cheia sobre sua amante prostituta. Um cão simpático estava parado de olhos cravados no churrasco, estimulando a própria saliva, deixou a língua pendurada. A conversa do churrasqueiro não era das mais cultas:
"Eu vou dizer pra ela que assumo a penca de filhos que tiver. Vou tirar ela daquela vida. Quando eu ia no putero, ela me dizia que se eu fosse homem e sustentasse ela, pagasse comida e uma casa, seria mulher minha, ia ficar comigo só. Ia trepar sem camisinha. Mas na época que eu conhecí, eu era casado, aí eu falei que não dava, eu tinha mulher e uma filha. Agora minha filha tá crescida já"
"E a sua mulher?", perguntou o outro sujeito curioso.
"A mulher já morreu de desgosto faz é tempo", finalizou o vendedor de churrasco.
O cão simpático, quando inventava de uivar por um pouco de comida levava um "sai pra lá", mas voltava logo em seguida. O estamago de Ricardo, assim como o do cãozinho já roncava bastante, mas nada de comer antes de terminar o "trampo".

Enquanto isso o senhorzinho conversava ao telefone, parecia enfezado. Após a conversa pelo celular ele entrou na paróquia. Ricardo se apressou, levantou da cadeira da parada de ônibus e seguiu o homem. Antes de entrar, esfregou as mãos uma contra a outra, respirou fundo, estava tão frio que o vapor exalou pela boca. Um sorriso sádico se revelou, o prazer da caça.

Dentro da igreja Ricardo sentou algumas cadeiras após o senhorzinho da maleta. A paróquia estava quase vazia. O senhorzinho buscava uma posição para se prostar de joelhos. Ricardo puxou um espelho, fingiu pentear os cabelos ao observar se o senhorzinho já estava de olhos fechados para rezar. Por o que estaria rezando? O que havia dentro da maleta? O conteúdo, tanto da válise quanto do coração, permaneceriam no mistério.

Ricardo olhou para frente e a imagem de Jesus Cristo crucificado o observava. Os punhos pregados à cruz, sentiu culpa. "To dentro da igreja querendo roubar um cara, sou um canalha mesmo", pensou. Olhou pelo espelho novamente, o senhorinho já havia fechado os olhos. A maleta sozinha ao seu lado. "Oh pai, tenha piedade, ele tá dando muita sopa", pensou Ricardo. Mas a imagem de Jesus o deixou constrangido, resolveu fazer uma pequena oração.

"Jesus, pega leve comigo aí. To precisando de uma grana e tu já sabe bem disso! Tú tá ligado que eu to mais quebrado que espelho de feioso. Olha, eu prometo que vou voltar a comparecer às missas, tu sabe que eu sou religioso, que eu gosto desse lugar aqui, mas sabe coméquié né? Preciso viver o presente. Vamos dizer assim, que eu vivo pelo presente, e essa maletinha do engravatado que eu vou pegar e ele não vai perceber é uma oferenda que eu faço ao teu pai, o Deus. Ele é onipresente né? Então ele é do agora também! Vamos entender esse roubo não como um roubo, mas como uma missa pelo tempo presente! Pode ser assim? Tu aceita essas condições? Se não aceitar, me dá um sinal, vou esperar, pode ser qualquer coisa, uma pomba voando, um trovão, qualquer coisa. Se não tiver sinal, aí eu vou lá e celebro a missa pelo tempo presente! Combinado? Tá certo, depois não vai reclamar hein! Tu já perdoou um ladrão uma vez, você pode me perdoar também."


Ricardo terminou a oração e aguardou por um sinal divino que o impedisse de cometer o furto. Marcou 30 segundos no relógio. "Não vou esperar demais também né? Vou dar uma colher de chá, se o cara sair em 30 segundos eu vou embora sem roubar". Os trinta segundos foram os mais demorados que Ricardo já passou. Ficou encasquetado tentando descobrir o que tinha dentro daquela maleta, temia que o homem fosse embora, mas no fim dos 30 segundos Jesus não deu nenhum sinal divino. O senhorzinho ainda rezava de olhos fechads, nenhuma santa chorou sangue, nenhuma luz celestial pousou dos céus, e não choveu.

"É Jesus! Quem cala consente!", pensou Ricardo. Se levantou calmamente, andou em passos astutos, o silêncio abençoado da igreja não ouviu nenhum de seus ossos estralar. Esticou o braço, retirou a maleta do lugar com toda a cautela e saiu pela porta da igreja. O senhorzinho permaneceu rezando, de olhos selados e fé azarada. "Talvez ele esteja pedindo um alívio na vida, eu to aliviando o peso dele carregando a maleta!", pensou ricardo rindo por dentro.

Quando varou a porta da igreja o estômago já estava reclamando, um ronco agudo e dissonante alertou para a fome. Ricardo atravessou a pista numa calma esquiva, foi até o vendedor de churrasquinho e pediu dois churrascos no espeto. Passou farinha, girou no molho. Tirou a carne toda de um dos espetos e jogou no chão para alimentar o cão simpático.

Caminhou para longe, pelos becos de São Sebastião que só ele conhecia. Comia espeto de churrasco de carne de terceira, com uma mala na mão, um amigo cão e a consciência tranquila.

Estava celebrada a missa pelo tempo presente, o padre? Um ladrão.


John Cage Messe pour le temps Présent
http://www.youtube.com/watch?v=qlSX50pXVto

Marcadores:

  1. Blogger Dona Fulô | 22 Junho, 2008 |  

    Gostaria de saber o que havia na maleta...

  2. Blogger Sujeito Oculto | 23 Junho, 2008 |  

    Eu também fiquei curioso pelo conteúdo da maleta. Mas, pelo visto, não era tão relevante assim.

  3. Blogger Rodolfo Godoi | 23 Junho, 2008 |  

    A gente vive ficção!

  4. Blogger Super Nada | 24 Junho, 2008 |  

    Faz lembrar um pouco o filme Rounin (acho que se escreve assim), onde vemos o filme por completo e nunca sabemos o que tem na maleta. Pena que isso destroi a história, porque fica-se na espectativa de saber o que tem na maleta...

  5. Blogger *Raíssa | 24 Junho, 2008 |  

    Genial esse texto! Mas afinal: qual era o conteúdo da maleta? Fiquei curiosa!

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