Aos socialmente bem adaptados
Não é necessariamente sadio estar bem adaptado à uma realidade doente 
O trabalho é o laboratório perfeito para a prática de crueldades. Os subordinados são cobaias pagas para agir, se comportar e ser conforme ditam as "normas" de cada empresa. Uma empresa tem sua personalidade, e o indivíduo precisa abdicar da sua própria para se conectar à filosofia empresarial. Para isso servem as gravatas atadas ao pescoço, não há metáfora mais clara para coleira ou forca. Os sapatos desconfortáveis, a calça penicante e a roupa social.
A indumentária do assalariado é um atentado ao espírito humano, livre de nascença. Porém, tanto entre os humanos como entre os cães, existem os facilmente domesticáveis e os que conservam sua agressividade. Fica vivo o seu instinto e sua alma, o que faz respectivamente dos cães, cães, e dos homens, homens.
Tanto nas empresas como nos canis, alguns se sobressaem aos olhos dos "superiores" quando demonstram profunda obediência e conformidade com a situação inalterada, o status quo. A ausência de personalidade e instinto cotuma agradar o opressor.
Os funcionários amestrados são reconhecidos no mundo empresarial, sua docilidade é recompensada com biscoitos, no caso dos cães, e com confiança e promoções, no caso do funcionário. Conquistam posições invejáveis no "MERCADO DE TRABALHO", pois nunca se põem a frente de seus "absolutos superiores" que os conduzem a base do cabresto, ou da coleira da gravata.
O resultado desse esforço de obediência na vida de um ser-humano é a devoção quase espiritual ao seu ambiente de trabalho. Existe agora o fenômeno dos concursos, tido por muitos como a opção mais viável de uma vida repleta e abundante. O concurseiro é um ser-humano comprometido em estudar várias horas por dia, a colecionar apostilas de direito, português, informática, e a livrar-se de sua vida social em troca de um trabalho bem remunerado, mesmo que não vá necessariamente de encontro com suas potencialidades e perícias. O concurseiro sabe que não precisa se preocupar em gostar de seu trabalho, o dinheiro será a recompensa pelo sofrimento. Há uma vantagem entre os concurseiros, estão protegidos por leis que conferem segurança em sua posição, só são despedidos quando cometem um erro muito grande.
No caso do funcionário não concursado é ainda pior. O "superior" sente-se no direito de tratar o subordinado como lacaio. A competição acirrada leva os cães amestrados a competir pelo poder com grunhidos de puxa-saquismo, miados em alguns casos. O puxa-saco é submisso ao seu "superior", e desconta sua frustração de não ser o dono do poder submetendo o subordinado a ele a situações degradantes. Parecem tão poderosos, mas quem os conhece sabe bem que foi de tanto uivar o chefinho que ganharam o cargo que tem. "Você com uma arma na mão é um bicho feroz! Sem ela anda rebolando e até muda de voz", como diria o sambista pernambucano, embaixador dos morros cariocas, Bezerra da Silva.
Essa corja insegura de capatazes, puxa-sacos nativos do conglomerado empresarial, apresentam todas as características físicas de um homem escurraçado, medroso, mas tentam se impor com crueldade para demonstrar a falsa segurança. No latim a palavra idiota significa, um homem de alma curta, o funcionário bem adaptado é um homem que trocou sua alma pela cobiça, pela mesquinharia, está portanto, podre por dentro. Tem uma postura arrogante, aspereza e não tem nenhum senso de humor além do sarcasmo corrosivo. Aliás, sarcasmo corrosivo é uma redundância. Se o bom humor é esperança, o sarcasmo é a corrupção da esperança.
É possível visualizar um estereótipo do funcionário arrogante e frustrado, satisfeito com a orgia do abuso do poder ao abusar de seus subordinados: Carrega a cruz da auto-afirmação, um ar de autoridade artificial; Tem as sobrancelhas bem feitas, possivelmente utiliza uma pinça para este trabalho; Usa um paletó impecável, pendurado a maior parte do tempo em um cabide; os fiapos remanescentes em sua cabeça levam horas em frente a um espelho para serem rigorosamente penteados, segue a estratégia militar, faz com os cabelos no terreno da careca uma estratégia de guerra para encobrir áreas de defesa debilitada. Um verdadeiro estrategista capilar.
Se cabe aos amigos o papel de animar as horas ruins, aos inimigos cabe o papel do desafio, cabe a ele, o patrão estereotipado o papel de fomentar a fúria do funcionário de espírito livre. De removê-lo da apatia para ação subversiva, um passo em falso é sempre desculpa para uma ferroada do capataz.
Os poderosos não são tão firmes como uma rocha. Quanto maior o poder (e o valor que se dá à ele) tanto maior será o medo de perder. Aquele que não sabe administrar o poder seguirá como regra mais básica a máxima: Quantidade de poder é diretamente proporcional a solidão, ao vazio na alma. A ausência de uma espiritualidade individual se resume em uma busca vazia por poder, sexo e consumo.
Patrões, puxa-sacos, engravatados, descolados e toda essa corja de bem adaptados socialmente à uma realidade doente, os seres mais baixos da modernidade.
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Um dia um pedaço de carne amarrou um pano no pescoço e entrou em uma caixa cheia de janelas. Encontrou-se com outros pedaços de carne, sentou-se no pedaço de madeira passou muitos pedaços de horas e foi embora. Fazia isso todos os dias. E no final do mês recebia alguns pedaços de papéis verdes. beijos
Muito bom! Excelente, curti muito!
Abraço!
Gosto muito do jeito que você escreve...apesar de não concordar com todos os seus textos.
O visual novo do seu espaço também está muito legal!
Bju
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